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My Biggest Fear

fb_img_1522055130675What leads me to write is the very fascination for the discovery of what will come with the creation of each character! The enigma, the mystery, the not knowing what is beyond that invisible curtain that is what divides the fiction of reality!

I believe in the forces of words, not only the beautiful and touching words spoken, but fundamentally the writings, but for me, the words spoken with natural sweetness, have value immeasurably. And that’s where my biggest fear comes from.

For it is human nature to be afraid. One of the greatest fears, in my opinion, is not the fear of the other, this is only one of them or the fear of the future or of what it will bring, is also just one more, but the fear of the unpredictability of the future, that will in knowing, at all costs, and perhaps there are people who

 pay what they do not have, in the vain attempt to predict the future, but at the same time, we all know that our predictions are just that, prediction, nothing more than that. This is undoubtedly the greatest fear of mankind because this is the most extensive of fears, for this is the fear that accompanies us throughout our pilgrimage on earth!

In my case, I add to this fear another fear that is to lose speech, voice! Funny, I get to the point of having nightmares about it! As if I were a professional singer with commitments made with the world, or as if I had pretensions to be a Member in the United Nations, and I do not even know if the deputies themselves or singers fear as much as I fear for my speech.

Pérola do Estuário - Lisboa - 027

When I think about it, I sometimes laugh at myself and I think that others will laugh at me, if they did, for they may think I am paranoid and maybe, I do not know and do not intend to know, the truth is that more than being afraid of losing my motor skills, I’m not afraid to grow old, to wake up one day and not be able to walk, to not be able to write anymore, or even to not be able to make love to my muse, nothing it torments me more than to imagine waking up one day and not being able to call my children by their proper names, not being able to declaim poetry and not being able to tell my wife, with my own voice, how much I LOVE her!

Author: Emilio Tavares Lima
Edinburgh

 

THE HOUR OF DEPARTURE

The Hour of Departur

Destino – Coração de Leste

Pérola capa Completa
Pérola do Estuário

Pegou na mochila e tirou da mala maior algumas peças de roupas básicas, típicas para o clima tropical e colocou-as na mochila. Também colocou chinelos, bonés e umas sandálias. Pendurou os binóculos ao pescoço, colocou na cintura, com apoio do cinto, o estojo com os óculos de sol. Tomou a chave e seguiu, com Bruno, até ao fundo da garagem e, depois, entrou no carro indicado. Era um Nissan Patrol, 4×4 – 4.2 Diesel, modelo refinado com acabamento de luxo, azul-escuro brilhante. O carro tinha apenas os quilómetros de rodagem – diga-se de passagem, um carro novíssimo a estrear.

Entrou no carro e começou a viagem em direcção à zona Leste da Guiné-Bissau.

– Meu Deus! Não posso acreditar nisto! – As exclamações voltaram. Estava incrédulo com o avançado estado de degradação das pouquíssimas infraestruturas deixadas pelos colonos, desde edifícios comercias, jardins públicos, escolas, passando pelas casernas e até as vias de comunicações.

– Tantos buracos nas estradas, meu Deus!

A viagem foi mais demorada do que pensara, devido ao estado do asfalto. Por outro lado, parava nos locais importantes para reconhecer as coisas, tirar algumas fotos – para depois comparar o antes e o depois -, tanto que parou em Safim, Nhakra, também no cruzamento de Mansoa. O entroncamento de Bambadinca foi a penúltima paragem que fez, antes de chegar a Bafatá.

Já em Bafatá, procurou um hotel no centro da cidade. Pretendia o melhor quarto: com banheira de hidromassagem, ar condicionado e com a melhor vista possível, o que infelizmente não foi possível, devido ao facto de já ter sido ocupado por um casal de turistas franceses. Entretanto, teve de se conformar com um dos apartamentos disponíveis, mas sem a banheira de hidromassagem. Contudo, tinha uma excelente vista também para a cidade.

Fez o chek-in com a previsão de check-out no domingo, ao final do dia. Recebeu a chave e instalou-se no quarto. Por lá ficou até perto das 21h00. Foi até ao refeitório, jantou um caldo de peixe com baguitchi, pediu uma cerveja nacional “pampa”, aproveitou a ocasião para pedir orientações ao garçon. Quis saber como poderia chegar à discoteca e, claro, também tentou saber da Djenabu.

– Mais uma cerveja, por favor – olhou em direcção ao bar, viu o garçon, levantou o braço e fez o pedido.

– Aqui tem. Mais alguma coisa? – perguntou o jovem.

– Sim, preciso de uma orientação… Mas como é o seu nome, antes de mais nada?

– Toni.

– Toni, de António?

– Sim. O meu nome no bilhete de identidade é António, mas só os professores me tratam por António.

– Entendi, Toni. Quero ir à discoteca, mas não sei onde fica, muito menos como lá chegar. Consegue ajudar-me?

– Sim, é fácil lá chegar. Aliás, vou lá hoje, ao sair daqui.

– Ah sim!? Assim sendo, podemos ir juntos! Que tal?

– Que fixe. Sim, pode ser.

– Sai a que horas?

– Às 23h00.

– Perfeito. Então, vou tomar um duche e fico à sua espera.

– Óptimo! Então, até já.

– Até já.

A cabeça de Artur andava a mil só de imaginar que, dentro de pouco mais de uma hora, poderia encontrar a mulher dos seus sonhos, a menina moça que o fizera abandonar a sua própria família, a sua propriedade e voar milhas e milhas de distância.

Por volta das vinte e duas horas e quarenta e cinco minutos, já estava à porta da rua à espera de Toni.

“Coração de Leste” era o nome da discoteca sugerido pelo jovem garçon, como sendo a mais moderna, consequentemente, a mais glamorosa.

Pouco depois das vinte e três horas, chegaram à discoteca. Foi a primeira vez que o Toni chegou a uma discoteca num carro, mesmo não tendo sido ele o condutor ou proprietário da viatura. Os colegas que o viram a sair do carro ficaram com inveja – uma inveja branca, digamos assim.

Cumprimentou os amigos e seguiu com Artur para a bilheteira que pagou as duas entradas. Já dentro da discoteca, ficaram sentados numa mesa privilegiada, na zona reservada aos Very Important People, a conhecida zona VIP. Também foi a primeira noite que Toni teve a oportunidade de se sentar nessa área. Inclusive teve a autorização do amigo, Artur, para convidar a sua namorada para ficar na mesma mesa, infelizmente, os pais da namorada de Toni não lhe facilitavam a vida. Só namoravam à moda antiga, à frente dos pais, sentadinhos, cada um na sua cadeira. Quanto muito, Toni pegava-lhe nas mãos e ficavam na conversa e a ouvir histórias que achavam uma seca.

Artur pediu ao jovem para tentar verificar se Djenabu estava no grupo das pessoas que teriam acabado de entrar ou se não estava lá fora, junto à bilheteira.

– Não, ela não está nesse grupo. Também não deve estar na bilheteira, porque não paga a entrada!

– Não paga entrada, aqui!?

– Ela não paga.

– Porque não? Namora com o porteiro?

– Ah! Ah! Ah! Ah! – riu-se à gargalhada – Djenabu, namorar com o porteiro!?

– Não? Então, porque é que ela não paga a entrada?

– Porque, quando ela entra, atrai outros clientes! Basta ela entrar para a discoteca se encher de pessoas! Tanto rapazes, como raparigas, todos aqui ficam à espera que ela entre para depois entrar.

– Ai é?

– Pois é! Ela é famosa cá! Se quer saber, a maior parte das pessoas só começa a dançar quando ela entra e começa a deslisar na pista!

– Então é por isso que a deixam entrar sem pagar?

– Sim. Acho que deveriam pagar-lhe por tudo isso.

– Também acho. Mas de agora em diante, vai deixar de fazer isso.

– Porquê, vai levá-la para Portugal?

– Para Portugal!? – exclamou. Ao ouvir o amigo dizer Portugal, o seu pensamento viajou no mesmo instante, lembrando-se logo da sua esposa e dos seus filhos. Ficou meio atrapalhado.

– Sim, para Portugal, vai levá-la?

– Ah sim, para Portugal! Sim, se ela quiser ir passar férias, tudo bem, mas não para ficar por lá a viver, deixando este paraíso. Não seria boa ideia.

A conversa de Toni deixara-o pensativo. Tirou um cigarro do maço que tinha em cima da mesa e começou a fumar. Mandou vir uma garrafa de champanhe. Não a abriu na esperança de ver a sua “alma perdida” surgir, para com ela brindar. De vez em quando, arranjava a gola da camisa, alisava o bigode, cruzava as pernas, tentava ficar bem apresentável, todo vaidoso.

Muito antes da uma da manhã, Toni despediu-se do seu amigo.

– Vou-me embora.

– Já? Ainda é cedo!

– Sim, eu sei que ainda é cedo, mas acontece que, amanhã, tenho de me levantar muito mais cedo. Amanhã, faço o turno da manhã.

– Tudo bem, compreendo. Toma mais um sumo, antes de ir embora.

– Muito obrigado, já estou bem. Amanhã vemo-nos no hotel.

– Boa noite.

– Obrigado, igualmente.

O tempo passava e nada de Djenabu. Artur começou a ficar ansioso, impaciente. Fumava cigarros, uns a seguir aos outros. Não chegou a abrir a garrafa de champanha. Mandou vir uma garrafa de vinho.

Começou a sentir-se desiludido por não ter encontrado Djenabu na discoteca. A sensação das altas expectativas fracassadas é igual a ter um horizonte decorado com um belo pôr-do-sol, e, num abrir e fechar dos olhos, aliás, num fechar e abrir dos olhos, esse belo horizonte transforma-se numa grande muralha incolor, numa grande treva, quando tudo se transforma em nada. Então, resolveu embebedar-se. Afogou a alta expectativa que criara para essa noite nas sucessivas taças de vinho. Por vezes, pedia vinho tinto, às vezes branco. Embebedou-se tanto ao ponto de perder a lucidez e a compostura que normalmente caracteriza um diplomata “cooperante, neste caso”! Começou a andar de uma ponta da discoteca para a outra, a perguntar pela mulher da sua vida, dos seus sonhos e da sua imaginação também, pelo seu amor platónico, digamos assim. A resposta era sempre a mesma – “Ela não veio hoje!”.

– Mas sabe-me dizer se ela tem namorado? – insistia, mas, sucessivamente, as pessoas riam-se logo na sua cara e afastavam-se, não apenas dele, mas do cheiro do álcool com o cigarro à mistura! Lá tentava, com alguma dificuldade, dar mais uns passos, muito desengonçados, para a próxima mesa e repetia a mesma pergunta:

– Viram a Djenabu hoje aqui na discoteca? – como era óbvio, a resposta era a mesma!

– Não, não veio hoje! – tentava logo puxar a conversa com quem lhe respondesse.

– Pelo menos sabe-me dizer se ela tem marido ou namorado?

– Desculpa, mesmo que soubesse não lhe dizia, porque é algo que não me diz respeito! Ainda por cima, não conheço o senhor de lado nenhum, como é que vou falar consigo sobre a vida de uma outra pessoa?

– Não me conhecia, mas, a partir deste momento, deixo de ser um desconhecido para si, ou não concorda!?

– Como assim? – perguntou a moça com quem estava a falar.

– O meu nome é Artur, com muito gosto e todo prazer! Como é que se chama? – perguntou, mal terminou a frase, estendendo-lhe o braço e ficando à espera da reacção da moça, que, por sua vez, ficou incrédula com tamanha pró-atividade, soltando um suave sorriso, antes de lhe responder.

– Chamo-me Salimatu, muito prazer.

– É todo meu.

– O que é todo seu? – perguntou Salimatu, meio atrapalhada, enquanto olhava à sua volta para ver se encontrava algo de que Artur dizia ser todo dele!

– Perdeu alguma coisa? – quis saber Artur.

– Eu não, mas sim, estava a tentar ajudá-lo a encontrar aquilo que o senhor disse há pouco. Não sei o que é todo seu, que julgo ter perdido aqui agora, ou percebi mal?

– Ah! Não, nada disso. Você disse prazer e, simplesmente, respondi-lhe dizendo que o prazer era todo meu! – e riram-se à gargalhada.

– É que o senhor fala rápido e com a música, a compreensão torna-se ainda mais difícil, entente?

– Claro que entendo, Salimatu! Que belo nome o seu! E aí está a misteriosa letra “U” também no seu nome!

– Que mistério tem a letra “U” do meu nome?

– Essa agora! Sabe porque é que gosto de beber vinho?

– Não, não sei, mas também tenho que me ir embora, por isso, não se dê ao trabalho de me explicar, isto é, sendo uma história supostamente longa!

– Não é nada uma história longa. Já reparou que a última letra do nome da Djenabu também é a letra “U”? O mesmo “U” que começa com a palavra Uva: a matéria-prima do vinho que eu bebo “graças a Deus”, religiosamente, nas horas e nos momentos sagrados, por exemplo, nas três refeições! No entanto, não só percebeu que hoje bebi muito, confesso, mas, como acabei de explicar, gosto de beber. Mas para lá do meu gosto, às vezes sinto-me hipnotizado por esses dois misteriosos extremos: o “U” de Uva e o “U” de DjenabU! Por isso, tenho-me deixado levar pela uva, na ausência da Djenabu! Mas não pense que sou um bêbado, apenas gosto de beber para preencher ou colmatar a falta que ela faz à minha vida.

– Hum hum, já entendi perfeitamente! – disse a Salimatu, depois de uma risada, após a explicação, talvez a mais descabida que já ouviu na vida – Já ouvi a sua explicação, agora, se me der licença, vou-me embora!

– Claro que lhe hei-de dar licença e, inclusive, abrirei as alas para a minha amiga passar. Mas, atenção, não antes de dançar, pelo menos, essa kizomba comigo, para selarmos a nossa amizade, nesse harmonioso ritmo, que tem algo de mágico, ao mesmo tempo, quente e sensual, ingredientes que só a música africana tem!

– Meu Deus, eu mereço!? – disse, mostrando algum sinal de impaciência. Mas, como não pretendia deixar transparecer a imagem de pessoa anti-social, muito menos, ser indelicada com o senhor, conteve-se. – Normalmente, os homens de engates costumam ser chatos, por natureza. Então, quando estão bêbados, a coisa piora, passam a ser chatice em pessoa! – resmungou, baixinho, para não ferir a sensibilidade do amigo que tinha acabado de fazer. Lá lhe estendeu a mão e foram para o meio do salão.

Mal chegaram à pista, antes de começarem a dançar, para a felicidade de Salimatu (que não queria dançar) ou por infelicidade de Artur, o disck joker lembrou-se de fazer soar o som da sirene com que assinalava a passagem de um estilo de música para outro. Alterou o estilo de música, saiu de kizomba (o único estilo de dança africana que Artur aprendera, em Lisboa, nas vésperas da sua ida para Guiné-Bissau) para Gumbé (o estilo genuíno da Guiné). Escusado é dizer que Artur ficou algo atrapalhado, mas tentou na mesma agarrar a dama para dançar! Essa, por sua vez, informou-lhe, muito educadamente, que o estilo em questão era para o exercício da liberdade total e incondicional de dança. Portanto, podiam dançar afastados, soltos.

Arrebatado pelo ritmo do Gumbé e com álcool à mistura, Artur esqueceu-se de que era um diplomata, dobrou as calças até ficarem presas por cima dos gémeos, puxou as mangas da camisa e prendeu-as nos bíceps, e tomou conta da pista. Inventava e reinventava passos e mais passos. Fundia kizomba com a música pimba, com sapateado, rock, tecno e sabe-se lá mais o quê! Às tantas, ficou sozinho na pista a dar o espetáculo, de graça, e as pessoas fizeram um círculo à sua volta, a bater palmas!

Ao fim de quatro músicas seguidas, Artur ficou com a roupa toda encharcada de suor. Respirava como se tivesse acabado de cortar a meta numa maratona! Mesmo assim, só parou, porque o disck joker parou a música para ler um comunicado e aproveitou para pedir uma grande salva de palmas para o Cooperante que abrilhantara a noite com uma dança rara, uma espécie de dança nunca antes vista no coração de Leste! A dança de Artur ficou conhecida como Gumbé do Cooperante! Artur, que juntou o seu aplauso com o do público e aproveitou o momento da leitura do comunicado que o DJ fazia para procurar a sua amiga, Salimatu, não teve sucesso nisso. Espreitou no balcão do bar, no corredor de acesso à casa de banho feminina… Também nada! Já não perguntava. Foi até lá fora, olhou à volta e nada da amiga. Foi até ao carro, abriu a porta, sentou-se e, ao tentar pôr a chave na ignição, por várias vezes não conseguia acertar até que a chave lhe saiu da mão e caiu. Quis apanhá-la no tapete, junto aos pedais. Acabou por ficar de bruços, por cima do volante e assim ficou a dormir, desde às cinco horas de madrugada até perto das oito da manhã, quando um raio de sol bateu no para-brisas, incomodando-lhe os olhos. O efeito do álcool já teria passado e ficou com ressaca, um mal-estar geral que sentia e nem queria acreditar no que teria feito para ficar naquele estado lastimável. Só se lembrava de não ter encontrado o seu amor platónico na noite anterior. Começou a procurar a chave até a encontrar e conduziu calmamente até ao hotel e atirou-se para a cama.

Por sua vez, Salimatu aproveitou o embalo de Artur na dança e saiu de fininho! Mesmo assim, não se escapou do rótulo de Amiga do Cooperante Dançarino de Gumbé, que perguntou a noite toda por Djenabu!

Logo pela manhã, a notícia espalhou-se pelos bairros da cidade e periferias de Bafatá. Antes do pôr-do-sol, como era de se esperar, todas as bancadas da cidade vizinha, Gabu, já sabiam do Gumbé do Cooperante. Alguns jovens já tentavam imitar os seus passos.

Artur ganhou fama e a sua dança ficou na moda! Na noite seguinte a discoteca Coração de Leste estava cheia de curiosos e curiosas. Inclusive, estava lá Djenabu, que também tinha ouvido falar da dança do Cooperante e quis ver com os seus próprios olhos. Só não sabia que o Cooperante em questão estava perdidamente obcecado por ela e que teria feito trinta por uma linha para poder chegar à cidade de Bafatá, na esperança de a rever e, quiçá, poder realizar o sonho de muitos anos: tê-la nos seus braços, olhá-la de perto nos olhos, poder mordiscar os seus tenros lábios, poder abraçá-la, demoradamente, como se fosse a despedida de um guerreiro, sentir o bater do coração dela ao apalpar-lhe os seios, poder rasgar-lhe as roupas do corpo, peça por peça, num jogo de sedução convulsiva, de duas almas gémeas, enfim, poder fazer sexo com ela nos lugares mais insólitos possíveis, poder escravizá-la sexualmente até à exaustão, ser o seu namorado e ficar grudado nela e esquecer-se de tudo o resto, como se se tratassem dos únicos seres terrenos, como foram Adão e Eva no jardim do Éden, para com ela reescrever a sua história amorosa e com ela partilhar as noites enluaradas, contar as estrelas, colher e partilhar os aromas das flores, aquecer as mãos na mesma fogueira, rolar na areia e junto com ela redescobrir todas as ilhas paradisíacas, reservas de biosferas, parques naturais, a diversidade cultural e a hospitalidade do povo da Guiné-Bissau.

Antes da uma hora de madrugada, a discoteca já estava a abarrotar de pessoas, coisa rara num fim-de-semana que não fosse festivo. Os mais curiosos ficaram atentos à porta de entrada, na expectativa de ver entrar o afamado Cooperante Dançarino de Gumbé! Artur mal conseguia sair do quarto. Estava ainda com a ressaca da noite anterior de tal modo que resolveu ficar de molho. Se soubesse que a sua doce tentação estava na discoteca, de certeza absoluta que teria feito um esforço para ir lá ter com ela!

Quem teve que prestar assistência a Artur terá sido o Garçon com quem foi à discoteca, Toni, mas que não ficou lá por muito tempo, pois teve de ir para casa, antes da uma da manhã, porque tinha de ir trabalhar cedo no dia seguinte. Entretanto, quis saber se o seu amigo Artur se tinha divertido e se gostara da noite, mas, como não o viu no refeitório na hora do mata-bicho, deduziu que teria dormido até muito tarde. Passou da hora do almoço, e nada de Artur; depois da hora do jantar, novamente nada de Artur. Toni começou a ficar preocupado. Foi perguntar ao guarda, e este informou-o de que o Cooperante só chegara a casa depois das oito horas, pelo que deveria estar a dormir.

– E pela maneira como gingava, pareceu-me que bebeu muito! – disse o guarda do hotel – Acho melhor ver como é que ele está – acrescentou.

Toni não hesitou, correu para o interior do hotel, chegou e bateu à porta, mas Artur não respondeu. Como estava entreaberta, empurrou devagarinho, de modo a não acordá-lo, se estivesse a dormir. Antes de entrar, espreitou e viu o amigo deitado, atravessado na cama, com os braços pendurados e a cabeça quase fora da cama. Sentiu um cheiro esquisito e muito desagradável que invadira o quarto todo. Chamou as senhoras de limpeza e pediu um colega, também garçon, para o ajudar a levar o Artur para a casa de banho para lhe lavar a cabeça com água fresca. Enquanto os dois garçons estavam ocupados nessa tarefa nada fácil, as senhoras ficaram encarregues de limpar o vómito que provocava o mau-cheiro que já proliferava pelo corredor e pelos outros compartimentos do hotel.

Artur acordou na casa de banho minutos depois de ter levado com água quase gelada na cabeça e no rosto. Não conseguiu perceber como chegara aquele ponto. Já não apanhava bebedeiras daquelas há mais de 20 anos. Não se reviu naquele estado deplorável, pelo que não parava de lamentar, pedir desculpa e agradecer aos garçons.

– Muito obrigado por tudo, jovens.

– De nada – respondeu – Somos amigos! Amigos são para todos os momentos.

– É verdade, Toni. Sabes uma coisa? Sei que já é muito tarde, mas ainda há possibilidade de conseguir comer qualquer coisa?

– Claro que sim. O senhor não tomou o pequeno-almoço, nem almoçou, muito menos jantou! Foi exactamente isso que me levou a vir saber se estava tudo bem! Portanto, se quiser tomar banho primeiro, enquanto vou servir a comida…

– Quero comer primeiro, depois tomo banho. Nem consigo ficar de pé, sem me apoiar! Vê lá a fome que não tenho.

– Imagino. Quer comer no refeitório ou aqui?

– Prefiro comer aqui no quarto, por favor – respondeu.

– Nem sei como hei-de encarrar os funcionários amanhã. Que vergonha! – acrescentou.

– Não fique a recriminar-se, são coisas que acontecem, meu amigo. Já venho.

Minutos depois, Toni voltou da cozinha com uma travessa com uma refeição completa e colocou-a numa mesinha que havia em todos os quartos. Artur agradeceu-lhe, sentou-se e comeu para depois ir tomar um banho daqueles, bem demorado, como se a água pudesse purificar a sua vida.

Se a sujidade estiver na consciência, de nada adianta lavar-se com rio de água e sabão, a imundície continua a pesar e a contaminar a mente. O banho do Artur não teria sido tão demorado se a sua mente tivesse limpa e com a tranquilidade necessária, se o desejo que estava por detrás da sua ida à Guiné-Bissau se realizasse, isto é, se tivesse encontrado Djenabu e tivesse conseguido fazer tudo o que idealizara. Mas como, até ao momento, não conseguira sequer avistar a mulher dos seus sonhos, começou a interrogar-se a si mesmo da sua atitude, perante a família que para trás deixara, na mentira que inventara, na infidelidade que estaria a cometer. Assim ficou, pensativo, quase uma hora debaixo do chuveiro.

Mesmo depois de ter passado esse tempo todo debaixo do chuveiro, a sua consciência continuava pesada. Foi até ao refeitório colocar a travessa e quis, mais uma vez, agradecer ao seu amigo, pela assistência, mas não o encontrou. Foi até ao portão principal e o guarda assegurou-lhe que Toni tinha ido embora. Voltou ao quarto e deitou-se com a consciência a martelar, com um terrível sentimento de perdedor. A frustração roubou-lhe a noite e tomou de assalto a sua tranquilidade. Só conseguiu adormecer lá perto das sete horas e acordou mais ou menos às dez e meia. Decidiu que teria de encontrar Djenabu, custasse o que custasse. Era domingo e deveria apresentar-se em Bissau na segunda-feira, ou seja, no dia seguinte.

Primeiro, teve de encarar a senhora da limpeza, a que limpou o seu vómito, agradecer-lhe e pedir-lhe desculpa. Assim fez. Levantou-se, foi à casa de banho, tomou um duche, fez a barba. Já tinha tirado as peças de roupa que iria usar. Vestiu-se, perfumou-se e dirigiu-se à recepção.

– Bom dia!

– Muito bom dia, senhor Artur! – respondeu o recepcionista, com entusiasmo – Teve uma boa noite? – acrescentou.

– Sim, graças a Deus, tive uma noite bem melhor que a noite anterior.

– Ainda bem. Deseja alguma coisa?

– Sim. A empregada da limpeza que esteve ontem à noite de serviço, está cá?

– Ainda não, mas vem mais tarde. Alguma coisa que eu possa ajudar?

– Nada de especial, só queria agradecer-lhe pela ajuda que me prestou ontem.

– Ah! Tudo bem, dir-lhe-ei logo.

– Agradeço-lhe desde já e, por favor, entregue-lhe este envelope.

– Será entregue.

– Mais uma vez, muito obrigado.


Finhani – O Vagabundo Apaixonado

Capítulo – VI

Na sequência dos tiros que levara no peito, o N’dinho esteve entre a vida e a morte, viu o inferno e o seu caldeirão a centímetros, passou três meses em coma profundo e mudo.

O que ninguém podia ter imaginado, muito menos o próprio N’dinho, era que o médico que o atendera no hospital fosse filho do proprietário da ourivesaria onde fora alvejado no assalto. Foi submetido a várias intervenções cirúrgicas para remover as balas.

Quando a ambulância chegou ao hospital, eram precisamente oito horas e quarenta e cinco minutos. O Dr. Paulo, Paulo Alves, como estava escrito na bata, já estava de saída, porque esteve de serviço durante a noite e deveria ter saído às oito horas e trinta minutos. Só não saiu porque o colega que iria substituí-lo estivera preso no trânsito no IC19. Portanto, como se tratava de uma situação de emergência, resolveu atender N’dinho. Os assistentes prepararam a sala com uma celeridade impressionante e minutos depois deu início à primeira de várias intervenções cirúrgicas a que o miúdo foi submetido.

Meia hora depois chegara o Dr. Gabriel, o médico que ficara retido no trânsito. Mesmo assim, Paulo Alves não quis ir para casa descansar: juntaram-se os dois médicos naquela que foi uma verdadeira operação de resgate de uma vida, com pouquíssima probabilidade de ser bem-sucedida.

Até esse momento, o Dr. Paulo sabia apenas que o miúdo tinha sido alvejado na sequência de um assalto a uma ourivesaria, mas não fazia a mínima ideia que a ourivesaria em questão era a do seu próprio pai, Artur Alves – senhor Alves, como era conhecido no seu bairro. Quando chegou a casa para almoçar viu o pai, o que não era normal, pois o senhor Alves não fechava o estabelecimento à hora do almoço:

– Pelo que tudo indica, o senhor resolveu aceitar o nosso pedido e fechou a loja para vir almoçar como deve ser com a sua família?

– Antes fosse por isso, meu filho!

– Então posso saber a que é que se deve a honra de ter vindo almoçar comigo?

– Pode ir comendo, meu filho, vou só buscar uma sobremesa à cozinha e já volto e conto-te com todos os pormenores.

O senhor Alves foi depressa à cozinha, escolheu duas peças de frutas e uma garrafa com água fresca, e regressou à sala. Puxou a cadeira para poder ficar de frente para o seu filho. Sentou-se. Paulo já estava ansioso:

– Pai, vais contar-me ainda hoje porque é que vieste almoçar a casa?

– Lembras-te de que no ano passado, mais ou menos nessa mesma época, quadra festiva, tinha sido assaltado e levaram uma quantidade de joias, inclusive as coisas que já tinham sido pagas quase na totalidade?

– Sim, lembro-me. Então apanharam os ladrões? Ou recuperaram as joias?

– Nada disso, meu filho. Já perdi as esperanças de que os polícias possam vir a recuperar aquelas jóias. Não foi nada disso. É que, desde aquela altura, tive que tomar as devidas precauções. Fui à polícia pedir a protecção e pago mensalmente para que, nas horas de abertura da loja e nas horas do fecho, tenha sempre por perto um agente. Qual não foi o meu espanto, hoje, quando cheguei para abrir a loja, quando não vi nenhum agente por perto. Não arrisquei. Resolvi ir fazer tempo no café ao lado. Antes passei por um quiosque, comprei o jornal, dei umas voltas e mais voltas, mas nada do agente. Decidi abrir. Mais ou menos cinco minutos depois de ter entrado no estabelecimento, entraram três jovens. Eram dois africanos e um branco.

– Bateram-te?

– Não, só queriam roubar ouro, mas não levaram nada. Afinal o agente já os tinha visto e montou emboscada. Viu-os a entrar e logo avançou em direcção à loja, mas os miúdos aperceberam-se da presença dele, saíram a correr, o agente disparou três tiros, um deles foi atingido com duas balas, caiu e os colegas fugiram.

– Chegaram a saber o nome dele? – Perguntou o Dr. Paulo Alves, na tentativa de associar o relato que acabara de ouvir com o miúdo que atendera hoje.

– Sim, tinha o bilhete de identidade na carteira. Tinha apenas dezassete anos e chamava-se Dino.

– Dino?

– Não deves conhecer, filho, era um dos dois pretos.

– Estava a fazer essas perguntas todas porque hoje atendi e tive que levar para o bloco de operações um miúdo de dezassete anos que se chamava Dino. Também era de raça negra, e foi alvejado com dois tiros no peito na sequência de um assalto na ourivesaria! Seria coincidência a mais. Só podemos estar a falar da mesma pessoa, Pai!

– Não tenho a mínima dúvida. Só não sabia para que hospital o teriam levado. Agora já sabes a razão de ter fechado o estabelecimento, não só para almoço, bem como para um fim-de-semana prolongado.

– Fazes bem. Por mim, pegavas na mãe e iam arejar a cabeça lá para o Alentejo. Eu tenho que voltar ao hospital. Depois desta informação, não vou conseguir dormir. Se a direcção do hospital aceitar, vou cuidar deste miúdo até ficar bom, para depois termos uma boa conversa.

– Acho bem. – Disse o senhor Alves, concordando com o filho.

Depois desta longa conversa com o pai, levantou a mesa, pegou no carro e voltou ao hospital. Mal chegou, os colegas estranharam, porque não era habitual. O Dr. Gabriel, o colega, chegou a perguntar se havia esquecido alguma coisa. Ele respondeu apenas que não: “

– Só voltei para saber do miúdo que operámos de manhã.

– Ele saiu da sala de operação para os cuidados intensivos e está tudo bem com ele. – disse o Dr. Gabriel.

– Sim, sei que já está nos cuidados intensivos. Para todos os efeitos, vou lá ver como é que ele está a reagir.

– O que está a acontecer contigo, Paulo?

– Não se passa nada. Senta-te. Vou explicar-te.

Começou a contar ao colega da conversa tida com o pai – até ao mais ínfimo detalhe. Explicou-lhe que o miúdo em questão não tentou assaltar uma ourivesaria qualquer, mas sim a do pai dele! Este, por sua vez, ficou incrédulo, mas depois perguntou-lhe:

– E agora que tens a vida do assaltante do teu pai nas tuas mãos o que estás a pensar fazer com ele?

– Vou cuidar dele como nunca cuidei de nenhum doente. Se for necessário, dormir cá. Não vou pensar duas vezes.

– E depois de ficar curado vais entregá-lo à Justiça?

– Não, até porque não conseguiram levar nada, desta vez. Os colegas fugiram e ele já pagou por isso com os dois tiros que levou. Tenho outros planos para ele. Não sei ao certo ainda o que fazer, mas quero ajudá-lo a deixar de ser vagabundo. Logo conto-te. Agora vou visitá-lo.

E assim foi. Passou a ir ao hospital todos os dias, mesmo nas suas folgas. Fazia sempre a questão de ir constatar in loco o estado clínico de N’dinho. Foi sempre assim durante os pouco mais de três meses de coma profundo em que o jovem esteve.

Após a recuperação, Paulo Alves fez questão de falar com ele para tentar perceber a razão que o levara a tentar roubar coisas alheias. Tiveram uma longa conversa na presença dos pais, Nhu Bernal e Nha Filipa Gumis. Todos ficaram a conhecer a verdadeira razão que levava este miúdo a roubar.

– Apaixonei-me por uma rapariga da minha escola, a Vanessa, mas ela nem olhava para mim, só para os meus colegas que levavam grandes telemóveis, ténis de marca: os betinhos.

– Mas chegaste a dizer à Vanessa que gostavas dela?

– Porque é que havia de dizer; aliás como, se ela nem olhava para mim? Eu não gosto apenas dela, sou apaixonado por ela. Gosto dela como nunca gostei de ninguém! Sabe, doutor, quando não a via na escola ficava logo com um aperto no peito, não conseguia sequer prestar atenção à aula. Nem tinha vontade de comer.

– É mais uma razão. Devias contar o que sentes por ela. Devias chamá-la e dizer que estavas perdidamente apaixonado por ela. Ela podia passar a olhar para ti com outros olhos e até podia aceitar namorar contigo, não achas?

– Quis fazer isso, e cheguei a tentar, convidei-a para tomar um gelado comigo. Não só recusou, como se começou a rir na minha cara! Como se não bastasse, ainda foi contar a toda a gente: às suas amigas e também contou aos meus colegas. Depois daquele dia, sempre que eu passava pelas amigas dela, punham-se a gozar comigo. Foi assim que comecei a faltar às aulas. No início, ia até perto, saía numa paragem antes da escola e ia jogar futebol num campo ao lado da escola, com um grupo de rapazes da minha idade que detestavam ir à escola. Até que um dia vi uma colega dela, da Vanessa, a passar. Estava a falar de um grande telemóvel. Tirei-lhe o telemóvel e ela chorou e disse que iria contar à minha DT, directora de turma. A partir desse dia deixei de ir à escola.

– Foi assim que começaste a roubar também, correndo o risco de perder a tua vida?

– Apenas pretendia ter as coisas que os outros tinham, para ver se ela começava a olhar para mim, se passava a dar-me atenção. Era tudo que eu queria. Se eu soubesse o que hoje sei, juro que não teria feito nada disso. Teria ficado na minha, haveria de aparecer uma miúda que gostasse de mim de verdade, mesmo sem ténis de marca, sem grandes telemóveis.

– E agora o que queres fazer da tua vida? Certamente que na tua escola todos já sabem o que te aconteceu, vais ter mais vergonha ainda dos teus colegas, das outras raparigas e da própria Vanessa. Se ela já não gostava de ti, agora é que não vai querer olhar para a tua cara! Não achas?

– Doutor, não gostaria de passar perto daquela zona, nem sob tortura, quanto mais de minha livre e espontânea vontade. Mesmo que tenha de ser um verdadeiro vagabundo ou nómada, um boémio ou indigente, desnorteado até morrer na sarjeta, será menos doloroso que voltar àquela escola.

– Tudo bem, eu compreendo, mas não penses que a vida do vagabundo é pêra doce! Chamei os teus pais para falar com eles e contigo também. Sabes porquê?

– Sim, Doutor. Porque vai dar-me alta hoje. Mas eu quero mesmo agradecer-lhe por tudo o que fez por mim. Devo-lhe a minha vida.

– Não precisas agradecer-me, N’dinho. Chamei-vos não só porque vais ter alta hoje, mas também para vos dizer quem é que eu sou.

– A enfermeira contou-nos que foi o Doutor que salvou a vida ao nosso filho; contou-nos também que o doutor passou várias noites, à vela, para cuidar do N’dinho. Só Deus poderá recompensá-lo por tudo que fez pelo nosso filho. – Dizia Nha Filipa Gumis, mãe do N’dinho, enquanto Nhu Bernal chorava inconsolavelmente.

– Fico grato por reconhecerem o meu esforço em resgatar e devolver a vida ao vosso menino. Mas gostaria que soubessem por mim mesmo que eu sou filho do Artur Alves, o dono da ourivesaria que o N’dinho e mais dois colegas tentaram assaltar. – Ao terminar esta frase, o N’dinho e os pais ficaram cabisbaixos. – Não vou fazer nada de mal com o vosso filho; apenas quis compreender o que levou o N’dinho, um miúdo, a querer assaltar uma ourivesaria quando podia ter estado na escola. Acho muito sinceramente que ele não nos mentiu agora. Apesar de não concordar com a atitude que teve, compreendo. Portanto, se for possível, a partir de hoje, gostaria que o vosso filho fosse viver comigo! Quero colaborar na educação dele. Conhecemo-nos da pior forma possível, mas acabei por gostar muito dele. Deixam-me ajudar?

As lágrimas correram pela face dos três: Nhu Bernal, Nha Filipa Gumis e o N’dinho. No entanto, Nhu Bernal ficou a imaginar que por detrás de cada vagabundo há sempre uma longa história. Lembrou-se do Finhani e ficou com remorsos por ter espancado o pobre vagabundo. Pensou no facto de o seu próprio filho ter estado na eminência de tornar-se num verdadeiro vagabundo. Concluiu que se o Finhani tivesse tido a mesma sorte do N’dinho, se tivesse aparecido um Dr. Paulo na vida dele, como aparecera na vida do seu filho, talvez não tivesse ido parar às ruas da amargura, ao ponto de ser injuriado como tem sido sempre ou espancado como se de uma bola de trapo se tratasse.

– Vai-nos custar muito, doutor, mas não temos como recusar a sua ajuda. Demos a primeira vida ao N’dinho, mas a segunda vida foi o doutor que lhe deu. Portanto, ele é tão nosso filho quanto seu. Por tudo isso, só temos que agradecer pelo facto de ter cruzado os nossos caminhos. – Disse o pai do miúdo, à saída do gabinete do Dr. Paulo Alves.

– N’dinho, podes aproveitar para passar os próximos três dias com a família e matar as saudades aí no bairro. No sábado vou buscar-te.