Capítulo 7: As Horas Vazias de Tito - Continuação

Nos dias seguintes, os sobreviventes caminhavam entre escombros como fantasmas diurnos. Um sapato de criança pousado sobre um quadro negro partido. Um caderno de caligrafia tingido de sangue. Um colar feito de contas verdes, amarelas e vermelhas, pendurado num arbusto carbonizado. A memória tinha agora forma, cheiro e cor. E nenhuma era suportável. A Rádio Voz das Cinzas transmitiu o que pôde. Amílcar recolheu depoimentos. Um professor de Filosofia, de rosto ferido, disse: - Mataram-nos antes de nascermos. Porque o saber, quando nasce, já é revolução. A notícia correu o país e o mundo, em murmúrios. Mas as partes beligerantes, sitiado, quiseram silenciar a tragédia, trocaram acusações. A Junta declarou que era um acidente. Um erro de coordenadas. Um lamentável incidente bélico. Nada mais cínico: o CIFAP era visto por muitos como foco de pensamento livre, suspeito de acolher opositores discretos, uma ameaça com cadernos e ideias. As repercussões foram sísmicas. Manifestos surgiram em papel jornal e canais televisivos internacionais. Pinturas em murais de bairros populares com rostos calcinados e slogans como "Os que têm medo de ler matam os livros". Estudantes da capital do país fizeram vigílias. Mulheres rezaram, imploraram pela justiça nos supostos lugares sagrados. Mas ninguém veio pedir desculpas. Amílcar, com o gravador de Tito, colou tudo. Os sussurros dos que choravam, os cânticos de protesto, os passos incertos sobre escombros. Era como gravar os sons de um coração nacional em colapso. Tito não recuperou mais. O bombardeamento ao CIFAP foi-lhe o último prego. A cada vez que o relógio marcava três da tarde, ele cerrava os olhos e esperava. Não sabia o quê. Talvez a justiça. Talvez o esquecimento. Talvez ambos. À noite, escrevia ainda mais. Um dos últimos bilhetes dizia: "Se um país mata os seus professores, quem lhe ensinará a curar-se?" O tempo correu. Mas Tito parou. Numa manhã húmida, Amílcar encontrou-o na varanda, com o rádio mudo ao lado e os olhos abertos, mas sem vida. No colo, uma fotografia do CIFAP antes da guerra. Todos sorriam. Amílcar chorou. Mas não foi um choro qualquer. Foi uma chuva miúda de dignidade, uma confissão ao silêncio, uma despedida ao último técnico da memória. O funeral foi breve. Mas ecoou por toda a cidade de Bissau. Não houve discursos. Houve um minuto inteiro de rádio muda. Uma homenagem que só os que sabiam escutar entenderam. Na emissão da noite, Amílcar leu: - Hoje enterra-se um corpo, mas não uma história. Hoje, calou-se uma voz, mas não a verdade. Tito, técnico da liberdade, operário da memória, parte para os céus com os livros queimados na alma e a justiça por fazer. E, num gesto que atravessaria os confins da Guiné, em cada escola que sobreviveu, em cada rádio comunitária que resistiu, acenderam-se velas às três da tarde. E durante um minuto, ninguém falou. O país, enfim, escutou-se.

PROSA

Emilio Tavares Lima

4/11/20261 min ler

My post content