O Palácio das Sombras - Capítulo 7: As Horas Vazias de Tito
O tempo, esse escultor invisível, esculpira sulcos profundos no corpo de Tito. Os dedos, outrora maestros de ondas radiofónicas, agora tremiam como folhas em prece ao vento. Os olhos, embora vivos, conservavam a opacidade de quem trazia dentro de si um mausoléu de lembranças. Passava os seus dias deitado na varanda da modesta casa em Pussubé, rodeado por plantas secas, fantasmas vegetais que partilhavam com ele a silhueta da decadência. As lembranças vinham sem convite, sentavam-se a seu lado, cochichavam-lhe aos ouvidos como viúvas desconsoladas em velório. Amílcar visitava-o com frequência. Trazia folhas de tabaco, jornais velhos, notícias clandestinas e cadernos em branco, como se quisesse semear de novo a memória. Juntos, escutavam as antigas gravações da Rádio Voz das Cinzas. Muitas já corrompidas pelo tempo, mas ainda ressoando como salmos da resistência popular. - Sabes, rapaz - murmurou Tito certa tarde, com a voz embargada pela poeira do tempo - o que mais dilacera não é o estampido das bombas, é o silêncio que se instala depois. Como se tudo tivesse sido sepultado sem luto, sem nome, sem pedra, sem prece. O tempo ali arrastava-se como um corcunda velho. As horas estendiam-se longas como sombras de amarguras num cemitério de domingo. O velho relógio de parede, parado desde o bombardeamento ao CIFAP, marcava sempre três da tarde. Uma ironia cruel: era precisamente a hora em que, meses antes, a explosão trespassara o coração da educação nacional. A imagem dos corpos mutilados, dos cadernos a voar como pombas mortas, perseguia-o mesmo com os olhos fechados. Aquela tarde ficou marcada a ferro e sangue. Um silêncio traiçoeiro reinava antes do ataque. Os estudantes do CIFAP - Centro Integrado de Formação e Aperfeiçoamento Pedagógico - estavam reunidos em círculos, debatendo esperanças, projetos de reconstrução, ideais de uma Guiné nova. Mas o céu, esse velho cúmplice das tragédias, escureceu sem anúncio. Um trovão metálico, que não vinha das nuvens, rasgou os ares. - Primeiro foi um assobio - contou Tito, numa das gravações -, um zumbido que parecia vir do próprio inferno. Depois... o chão ergueu-se, o ar pegou fogo, e a esperança morreu. O míssil caíra junto à ala leste do edifício. Partira tudo. Os vizinhos que aí achavam um abrigo mais seguro, alunos, professores, livros, sonhos, tudo. As paredes cobertas de cartazes pedagógicos viraram cinzas. As palavras escritas com giz evaporaram-se em lágrimas de pólvora. Corpos de jovens foram atirados contra as paredes como bonecos de pano. Havia um cheiro ácido de carne, papel queimado e ferro torcido. Tito, que por sorte estava no pavilhão técnico, sobreviveu. Mas nunca mais sorriu.
PROSA
Emílio Tavares Lima
4/11/20261 min ler


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